Para que serve a arte?

Bernard Stiegler 

A arte, vista como um fenómeno antropológico associado à celebração de rituais ou à criação simbólica sumptuária, da Caverna de Lascaux à Capela Sistina, de Guernica a O Pensador de Rodin ou a Number 1A (1948) de Jackson Pollock, viu grande parte da sua função social ser absorvida pela assunção da estética como modus operandi, por excelência, do capitalismo industrial e pós-industrial.

A noção de arte como disciplina é coisa do século 19, segundo Stiegler. Grosso modo, é verdade, ainda que a constituição deste objeto teórico tenha origem na segunda metade do século 18, em autores como Baumgarten, Burke e Kant. Por sua vez, a assinatura do artista (a que Stiegler também alude como sintoma do aparecimento da arte enquanto categoria autónoma) é uma marca distintiva do Renascimento, assim como o início da história da arte moderna.

O conceito de arte nunca foi, porém, claramente descrito ou definido.

Por outro lado, segundo alguns, a necessidade ou importância do conceito de arte perdeu interesse, em parte devido à subordinação dos museus, galerias de arte e bienais à lógica do espetáculo e ao que, entretanto, conhecemos como economia da atenção. Mas se é assim, quem, ou quê, tem vindo a ocupar o lugar do que a palavra arte supõe?

Bernard Stiegler (1952-2020), cujo conhecimento devo à minha amiga Acácia Thiele — artista que a história de arte portuguesa, salvo raras exceções, desconhece completamente —, aborda nesta entrevista o atropelamento da recém-nascida arte moderna ao longo de todo o século 20. O vaticínio conceptual, instrumental e ideológico que sobre a mesma foi proclamado por Hegel e Nietzsche confirmou-se, pelo menos em parte, ou totalmente, se concordarmos com Stiegler. Na leitura que faço de Walter Benjamin, o poder da arte moderna consistiria na capacidade de conferir às imagens uma espécie de feitiço secular, especialmente apropriado à fetichização mercantil da arte moderna e das vanguardas artísticas em geral. Aconteceu, porém, segundo o malogrado Bernard Stiegler, que este poder especial conferido ao artista — ex-demiurgo e improvisado feiticeiro perdido na avalanche de objetos simbólicos e representações produzidas por máquinas — acabou por ser sequestrado pelo próprio sistema capitalista industrial-financeiro nesta sua nova era semiúrgica, para recordar um termo de Baudrillard.

O pessimismo de Stiegler parece-me limitar a própria capacidade explicativa da sua teoria. A crítica dos mecanismos de captura da atenção pelo capitalismo tardio é penetrante; menos convincente é a dificuldade em reconhecer que as mesmas tecnologias também podem ampliar a criatividade, a autonomia, a inteligência coletiva e a resistência humana à exploração.

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