Para que serve a arte?

Bernard Stiegler 

A arte, vista como um fenómeno antropológico associado à celebração de rituais ou à criação simbólica sumptuária, da Caverna de Lascaux até à Capela Sistina, à Guernica, ao Pensador de Rodin ou a Number 1A (1948) de Jackson Pollock, foi substituída, enquanto fenómeno social relevante, pela assunção da Estética como o ‘modus operandi’ por excelência do capitalismo industrial e pós-industrial.

A noção de arte como disciplina é coisa do século 19.

Nunca foi, por sua vez, definida. Por outro lado, segundo alguns, esta questão perdeu interesse, bastando, em apoio desta tese, observar a arena de disparates em que se tornaram museus, documentas e bienais por esse mundo fora ao longo da última década (e vai piorar). Mas se é assim, quem, ou quê, tem vindo a ocupar o lugar da palavra arte?

Bernard Stiegler (1952-2010), cujo conhecimento devo à minha amiga Acácia Thiele — artista que a história de arte portuguesa, salvo raras exceções, desconhece completamente —, aborda nesta entrevista o atropelamento da recém-nascida arte moderna ao longo de todo o século 20. O vaticínio conceptual, funcionalista e ideológico, que sobre a mesma foi proclamado por Hegel e Nietzsche, confirmou-se, pelo menos em parte, ou totalmente se concordarmos com Stiegler. A ideia de Walter Benjamin, tomando o poder da arte pós-religiosa e pós-burguesa em sentido estrito, como a faculdade de incutir nos objetos e nas formas, uma espécie de feitiço da imagem, progressivamente desfigurada, anónima ou indecifrável, adequada, aliás, ao gosto burguês e pequeno-burguês na era do capitalismo especulativo, também segue o vaticínio hegeliano. Aconteceu, porém, segundo Stiegler, que este poder do artista, ex-demiurgo e improvisado feiticeiro perdido na avalanche de objetos simbólicos e representações maquínicas, seria rapidamente sequestrado pelo próprio sistema capitalista industrial-financeiro e, mais radicalmente ainda, nesta sua nova era semiúrgica, para recordar Baudrillard.

A visão pessimista de Bernard Stiegler é um ponto de vista com o qual não concordo. É inconsistente e muito francês. Mas assertivo.

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