O deuterótipo

António Cerveira Pinto
Tropical Zoo, 1992
Galeria Graça Fonseca, Lisboa

É objetivo o que subjetiva

Comecei esta reflexão por causa de uma frase de Jacques Derrida. Durante anos, a sua afirmação de que não existe um “fora do texto” foi frequentemente entendida como uma negação da realidade das coisas. Pareceu-me sempre que a controvérsia ocultava um problema mais antigo: não a existência das coisas, mas a maneira como os seres humanos as instituem como significativas.

Muito antes de Derrida, o Antigo Testamento havia colocado a linguagem no centro da constituição do mundo humano. O Génesis começa pelo verbo; o Deuteronómio transforma esse verbo em lei; o Shemá condensa-o numa fórmula que institui uma comunidade, uma fidelidade e uma ordem simbólica. A linguagem não acrescenta matéria ao mundo; acrescenta-lhe objetividade e estatuto.

A arte participa da mesma operação.

Quando Marcel Duchamp deslocou um urinol para um espaço expositivo, não alterou o objeto. Alterou a relação que mantemos com ele. Separou-o do circuito da utilização e tornou-o disponível para uma atenção diferente. O objeto não ganhou uma essência nova; adquiriu uma nova condição.

O século XX conheceu, porém, outra transformação decisiva.

A sociedade industrial deixou de fabricar apenas utensílios. Passou a fabricar objetos investidos de desejo. A publicidade, o design, as marcas e os meios de comunicação constituíram um vasto sistema de produção simbólica que antecede o próprio consumo. Antes de serem compradas, muitas mercadorias já foram nomeadas, desejadas, narradas e, de certo modo, consagradas.

Foi neste contexto que surgiram os meus deuterótipos.

Não procurei objetos banais, indiferentes ou anónimos. Procurei precisamente objetos cuja identidade comercial fosse inequívoca. Comprei-os nas lojas onde desempenhavam plenamente a sua função económica. Depois retirei-os desse circuito e coloquei-os em galerias de arte e, nalguns casos, num museu de arqueologia.

Este gesto não pretende celebrar a mercadoria nem condená-la. Também não repete simplesmente o ready-made. Interroga uma condição histórica diferente: a de objetos que chegam ao espaço artístico já carregando a agência simbólica produzida pela publicidade, pelo mercado e pela memória coletiva.

Se, como propôs Alfred Gell, a obra de arte funciona como índice de uma agência, o deuterótipo introduz uma inflexão. O objeto já era índice antes de entrar no museu. A deslocação artística não lhe acrescenta agência; torna observável a agência que nele se encontrava sedimentada.

O deuterótipo é, assim, um objeto desobrigado.

Desobrigado da utilidade que justificava a sua fabricação, da sedução que legitimava a sua venda e, finalmente, da eficácia simbólica que sustentava a sua circulação. Permanece apenas a sua presença.

Nessa suspensão, a mercadoria deixa de ser apenas mercadoria. Revela-se como condensação material de história, linguagem, técnica, desejo e cultura.

Talvez seja essa uma das tarefas da arte: não produzir mundos imaginários, mas tornar visíveis os processos através dos quais o mundo humano se institui continuamente como mundo significativo.

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