(em formação)
Há conversas
que são como as cerejas:
puxamos uma
outras seguem-na.
Esta é
a descrição
de uma sequência inesperada
de imagens, memórias,
ideias.
Começou
num mosteiro imaginado.
Terminou
numa praia portuguesa —
entre marés,
passeios
e linguagens nascentes.
O mosteiro
não é de pedra.
Mas
um dispositivo de atenção.
Um microcosmo
onde o humano
confronta voluntariamente
os limites da carne
e da transcendência.
Aprendendo
a sentir
e a pensar
no milagre do mundo.
O primeiro voto para nele entrar
não será o da pobreza
nem o da obediência.
Mas:
o da partilha
e amor.
As máquinas
não seriam senhores
nem ameaças.
Seriam
brinquedos.
Quem não gosta
de brincar?
Pouco a pouco
o mosteiro
é paisagem.
As frases
imagens proposicionais
semeadas
nos lugares certos:
do refeitório
ao claustro
da nascente
à foz
do sopé
ao cume.
Como nos jardins japoneses
o vazio
antecede
e protege
o sentido.
Na verdade:
— uma praia comprida e larga
— horizontes a perder de vista
— habitada por pescadores
— enquanto navios navegam ao largo em movimento lento.
— uma praia
sem demasiada mobília.
Ali
caminhar
é pensamento.
Pensar —
gesto corporal
pés descalços
na areia fina.
As frases
não são monumentos.
São
eventos.
Escritas na areia,
nascem
e morrem
com as marés.
Sem princípio.
Sem fim.
O mar —
esse grande editor.
Na juventude,
eu caminhava só.
Mais tarde,
veio a partilha:
com a companheira
a filha
o genro
e finalmente
o neto —
o entusiasmo deste
é uma inesperada descoberta.
Falar com ele
é sempre uma viagem
na emergência
do conhecimento
e da linguagem.
Uma experiência
perto
do milagre.
Um dia,
sem óculos,
não pude ler.
E, então, ele respondeu, sem hesitação:
“Não faz mal, Vôvô.
Inventa!”
Inventar
não como desvio,
mas como forma
saudável
de habitar
o mundo.
Muito antes,
em 1991,
escrevi
na primeira página
de um livro de Piaget:
“imagens proposicionais”
Décadas depois,
essa inscrição
regressou inesperadamente
como um reencontro
luminoso
e reconfortante.
Ao lado,
na estante silenciosa:
Bateson.
Outro sinal:
o pensamento
não vive inteiramente só.
É
relacional.
É
ecológico.
Assim se revelou
a paisagem:
não edifício
não metáfora
mas:
ecologia
do pensamento
à beira-mar.
Um lugar…
frases nascem
ideias desaparecem
a linguagem transforma-se
as crianças reinventam o mundo
e, por fim,
o pensamento
aprende
a respirar.
Carcavelos, primavera de 2026
