
Do Fragmento sobre Máquinas à socialização da inteligência artificial
Neste ensaio, retomo o famoso “Fragmento sobre Máquinas” de Karl Marx para pensar a inteligência artificial como uma espécie de fábrica algorítmica do século XXI. Entre a luta de classes, os Mapas de Democracia [1] e a socialização do “intelecto geral”, procuro perceber como a IA já é um instrumento de controlo, mas também um potencial gerador de novas cartografias democráticas.
Num mundo ideal, a democracia aceita certos limites à liberdade, enquanto a liberdade se mantém vigilante perante a sua discreta tendência
para o poder absoluto.
No célebre “Fragmento sobre Máquinas” dos Grundrisse, Marx descreveu a fábrica como um organismo automático em que a máquina, e sobretudo o sistema de máquinas, se torna o verdadeiro virtuoso do processo produtivo. A ciência deixa de existir na consciência do trabalhador e reaparece incorporada na própria máquina, que o confronta como um poder estranho. O trabalhador já não domina o instrumento; é a maquinaria que o domina a ele, relegando-o para o papel de mera articulação consciente de um sistema que já não governa.
Com a grande indústria, diz Marx, a força produtiva da sociedade passa a apresentar-se sob a forma de capital fixo: o “intelecto geral” da espécie (conhecimento científico, técnica, organização) é absorvido no capital e volta a nós metamorfoseado em locomotivas, teares automáticos, linhas de montagem. Ao mesmo tempo, o capital torna-se uma contradição em movimento: procura reduzir o trabalho necessário ao mínimo, graças à máquina, mas continua a medir a riqueza pelo tempo de trabalho, isto é, pela quantidade de trabalho humano que consegue apropriar.
A inteligência artificial é a continuação desta história por outros meios. Aquilo que Marx via na máquina — ciência incorporada, força produtiva objetivada, intelecto social transformado em poder exterior — reaparece hoje nos modelos algorítmicos, nos sistemas de previsão, nos robôs dotados de sensores. A máquina já não é apenas um corpo de aço e vapor; é também uma nuvem de dados, uma arquitetura de servidores, um conjunto de modelos que decidem quem vê o quê, quem tem acesso a quê, quem é incluído ou excluído de que sistema. O trabalhador, e o cidadão, tornam-se de novo simples “nodos conscientes” de um dispositivo informacional que os ultrapassa.
Ao mesmo tempo, a IA torna visível uma nova frente da luta de classes. Como já se começa a dizer, ela é o “novo campo de batalha” onde se decide quem controla os meios de produção cognitiva: os dados, os algoritmos, as infraestruturas de computação. Sob o capitalismo, a IA tende a reforçar a assimetria: automatiza trabalho, intensifica ritmos, vigia, perfila, modula comportamentos. Mas depende, paradoxalmente, de uma inteligência distribuída que não controla totalmente: milhões de textos, imagens, gostos, trajetórias, decisões, que alimentam continuamente estes modelos. Os donos da IA são, por isso, menos donos da IA e da Robótica do que imaginam.
Foi neste horizonte que comecei, em 2012, a imaginar os mapas de democracia, como arte cognitiva com um esqueleto cívico. Na altura, tratava-se de desenhar cartografias conceptuais da democracia e das suas deformações, de expor territórios de poder, de conflito e de possibilidade. Hoje, com a IA ao volante, esses mapas podem ganhar uma nova vida: tornar-se interfaces dinâmicas entre dados, modelos e conflito político, em que a própria IA ajuda a visualizar infraestruturas de controlo, caminhos alternativos de decisão e zonas de exclusão sistemática. Em vez de aceitar a IA como caixa negra, podemos usá‑la como um gerador potente de mapas públicos.
A socialização da IA começa aqui: não apenas na regulação jurídica dos grandes modelos, mas na apropriação coletiva do intelecto geral que eles cristalizam. Significa disputar a propriedade dos dados, a governação das infraestruturas, a orientação dos algoritmos. Significa transformar a IA de máquina de extração em máquina de revelação, capaz de tornar visíveis as relações de poder que hoje se ocultam em linhas de código. Os Mapas de Democracia (Demos), nesta perspetiva, são uma forma de resistência ativa inteligente: cartografias agonísticas que usam a própria inteligência artificial como caneta aumentada para redesenhar a utopia e para confrontar, em campo aberto, as tentações totalitárias dos atuais proprietários das máquinas.
- Democracy Maps — Cognitive Art with a Civic Skeleton
https://thecuratorsblog.com/2025/08/13/democracy-maps-cognitive-art-with-a-civic-skeleton/
Marx and AI
From the Fragment on Machines to the socialisation of artificial intelligence
In this essay, I return to Karl Marx’s famous “Fragment on Machines” to think artificial intelligence as a kind of algorithmic factory of the 21st century. Moving between class struggle, Democracy Maps and the socialisation of the “general intellect”, I try to understand how AI is already an instrument of control, but also a generator of new democratic cartographies.
In an ideal world, democracy accepts certain limits on freedom, while liberty remains vigilant against democracy’s subtle tendency toward absolute power.
In his famous “Fragment on Machines” in the Grundrisse, Marx describes the factory as an automatic organism in which the machine, and above all the system of machines, becomes the true virtuoso of the production process. Science no longer lives in the worker’s consciousness; it reappears embodied in the machine itself, confronting the worker as a foreign power. The worker no longer masters the tool: it is the machinery that masters the worker, relegating him to the role of a merely conscious linkage in a system he no longer governs.
With large‑scale industry, Marx argues, society’s productive force presents itself in the form of fixed capital: the “general intellect” of the species (scientific knowledge, technique, organisation) is absorbed into capital and returns to us metamorphosed into locomotives, automatic looms, assembly lines. At the same time, capital becomes a moving contradiction: it strives to reduce necessary labour to a minimum through machinery, yet continues to measure wealth by labour time—by the quantity of human labour it can still appropriate.
Artificial intelligence is this story continued by other means. What Marx saw in the machine—science embodied, productive power objectified, social intellect turned into an external power—reappears today in algorithmic models, predictive systems and sensor‑equipped robots. The machine is no longer only steel and steam; it is also a cloud of data, an architecture of servers, a set of models deciding who sees what, who gains access to which resources, who is included or excluded from which system. Worker and citizen once again become mere “conscious nodes” in an informational apparatus that exceeds them.
At the same time, AI exposes a new front of class struggle. As some have begun to argue, it is the new battleground where control over the means of cognitive production is decided: data, algorithms, and computational infrastructures. Under capitalism, AI tends to reinforce asymmetry: it automates labour, intensifies work rhythms, monitors populations, profiles individuals, modulates behaviour and public discourse. Yet it depends, paradoxically, on a distributed intelligence it cannot fully control: millions of texts, images, preferences, trajectories and decisions continually feeding these models. The owners of AI are therefore less owners of AI and Robotics than they imagine.
It was against this background that I began, in 2012, to imagine the Democracy Maps: maps of democracy as cognitive art with a civic skeleton. At the time, the aim was to draw conceptual cartographies of democracy and its distortions, to expose territories of power, conflict and potential. Today, with AI in the driving seat, these maps can acquire a new life: they can become dynamic interfaces between data, models and political conflict, where AI itself helps to visualise infrastructures of control, alternative paths of decision‑making and zones of systematic exclusion. Instead of accepting AI as a black box, we can re‑stage it as the engine of public maps.
The socialisation of AI begins here: not only in the legal regulation of large models, but in the collective appropriation of the general intellect they crystallise. It means contesting the ownership of data, the governance of infrastructures and the orientation of algorithms. It means turning AI from a machine of extraction into a machine of revelation, capable of making visible the power relations that hide today in lines of code. From this perspective, the Democracy Maps are a form of intelligent active resistance: agonistic cartographies that use artificial intelligence itself as an augmented pen with which to redraw utopia and to confront, in the open, the totalitarian temptations of today’s proprietors of the machines.
