O erro de Marx sobre o trabalho — ou o novo elogio da preguiça

Roda de Liubliana, 5200 anos. A mais velha que se conhece.

O salário é uma forma de escravatura

É útil ler Karl Marx. É menos útil seguir as religiões ortodoxas que, em torno da sua aura, ergueram impérios pouco recomendáveis. Entre o Marx vivo e o marxismo endémico abre‑se um abismo: de um lado, a crítica radical das formas históricas do trabalho e do capital; do outro, um culto paralisante da centralidade eterna do trabalho assalariado, como se este fosse o destino último da nossa espécie.

Se formos intelectualmente honestos, qualquer forma de trabalho não voluntário, por um salário, é uma forma de escravatura mitigada. Prende o indivíduo a uma rotina imposta e a um preço igualmente imposto pela “lei” da oferta e da procura. A liberdade jurídica não apaga o facto de que, para sobreviver, a maior parte das pessoas continua a ter de vender a sua vida em blocos de tempo, formatados por outrem. A máquina humana é posta a render em troca de um salário definido longe dela.

As máquinas, desde a Revolução Industrial, têm feito um estranho favor à Humanidade: ciclo após ciclo, vão eliminando postos de trabalho. Primeiro substituíram os gestos mais duros; depois, as tarefas mais rotineiras; agora, com a inteligência artificial, começam a entrar no território do próprio pensamento aplicado: escrever, programar, decidir, responder a perguntas para as quais não tínhamos resposta. Quando consultamos a IA para resolver problemas complexos que não sabemos resolver, reconhecemos que a máquina já não é apenas ferramenta: é um novo órgão cognitivo externo.

Se é assim, por que razão continuamos a organizar a sociedade como se a sobrevivência tivesse de passar, obrigatoriamente, pela venda de trabalho? Mas a pergunta que na verdade se impõe é outra: e se as pessoas passassem a ser remuneradas, não para trabalhar, mas para viver, consumir e criar livremente? Em vez de pensarmos o rendimento como compensação pela submissão a uma rotina, poderíamos pensá‑lo como condição de possibilidade para uma vida adulta com acesso a algo que hoje é quase um luxo: tempo livre, curiosidade, imaginação, cuidado, empatia.

De certo modo, a Humanidade poderia evoluir em direção ao passado, ou melhor, em direção a um futuro que recupera algo da infância: um estado em que todas as nossas faculdades de perceção, aprendizagem e imaginação voltam a ter direito de cidade na idade adulta. A diferença é que, desta vez, a infância alargada seria sustentada por uma infraestrutura técnica madura, capaz de produzir abundância sem exigir, em troca, a submissão da maioria a trabalhos que já não fazem sentido.

Posso perfeitamente imaginar uma sociedade futura inteligentemente organizada e justa, com o auxílio simultâneo da inteligência artificial e dos Mapas de Democracia. A IA deixaria de ser apenas o motor invisível de plataformas e mercados, para se tornar instrumento de cartografia cívica: mapas vivos das relações de poder, das desigualdades, das alternativas possíveis. Os Democracy Maps funcionariam como interfaces onde a sociedade se vê a si própria em tempo real, decide em consciência e corrige as suas próprias derivas.

Nesse mundo, o tempo livre deixaria de ser o resíduo acidental do emprego para se tornar o centro da experiência humana. Seria dedicado à liberdade criativa, à amizade ampliada, à empatia geral — não só com todos os outros humanos, mas também com o resto da natureza. Esta, por sua vez, poderia ter assento próprio no Parlamento dos Outros: representada com o auxílio da IA, que traduziria em dados, imagens e projeções aquilo que hoje apenas intuimos — o ponto de vista dos rios, das oliveiras, dos corvos e raposas, ou do vento.

Talvez a verdadeira heresia pós‑marxista seja esta: desejar que as máquinas façam cada vez mais do trabalho que nos escraviza, para que possamos finalmente dedicar a vida ao que, desde crianças, pressentimos como digno dela — aprender, sentir, criar, cuidar e imaginar em comum.

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