Constelações, ensaios sobre cultura e técnica na contemporaneidade
José Bragança de Miranda
Edição Sistema Solar, 2023

“É preciso abandonar a mística da salvação que só relança o processo. Aceitando a finitude, vivendo numa errância longe dos arkhai, habitando no abismo da medialidade sem fim, surge a questão da política como imperativo absoluto.”
— José Bragança de Miranda
Uma reflexão caleidoscópica sobre a técnica, e em particular sobre os abalos e crises que esta provocou, ao longo dos séculos 18 e 19, nas sociedades, filosofias, artes e ciências europeias, causando uma espécie de pequena morte dos principais edifícios simbólicos que as acompanharam desde a pré-história até ao nascimento da fotografia — a máquina que, pela primeira vez, conseguiu registar imagens diretas da realidade externa, a mesma que os nossos olhos vêem, sem passar por qualquer processo indireto, manual-e-mental, de representação ou mito.
Como sabemos, ao longo de todo o século 20, esta capacidade de ver a realidade através de máquinas superou largamente aquilo que a olho nu conseguimos alcançar. As actuais tecnologias de obtenção de imagens expandiram a visibilidade humana até onde jamais suspeitaríamos chegar quando a fotografia e o cinema se tornaram sistemas de reprodução visual, e depois audiovisual, dos objetos e paisagens que delimitam e dão forma e espessura ao nosso quotidiano.
O magnífico livro de José Bragança de Miranda — Constelações—Ensaios sobre cultura e técnica na contemporaneidade — trata desta revolução, não tanto do ponto de vista da tecnologia e ciências associadas, mas tendo sobretudo na mira os seus impactos destrutivos na conversa filosófica e cultural do Ocidente, em particular naqueles pontos e eixos nevrálgicos onde, ao longo dos séculos, se formaram, cristalizaram e começaram a ruir as grandes convicções metafísicas, sistémicas, epistemológicas, culturais e políticas da humanidade.
A humanidade não é anterior à técnica. É pela técnica que aquela se foi libertando das suas limitações de postura corporal, cerebrais e ambientais. A fraca capacidade de cooperação entre indivíduos dependentes de estruturas familiares primitivas, também só pela via tecnológica se foi libertando dos seus inúmeros atavismos sociais.
Walter Benjamin e Marx, Platão, Foucault, Derrida, Lyotard, Meillassoux, entre outros, de um lado, Heidegger e Hegel, com Aristóteles e outros, do outro lado do espelho das aporias, são sucessivamente convocados por José Bragança de Miranda, a par de artistas como Duchamp, Kosuth, Klee, ou Lynn Hershman Leeson, de um lado, Marinetti e Roy Ascott, Eduardo Kac, Peter Weibel, ou David Rokeby, entre outros, do outro, como peças de um longo xadrez jogado em cima de um tabuleiro onde jazem os heróis exangues de uma luta sem quartel entre os que defendem não haver realidade sem nomeação, e os que acreditam na indiferença inumana da realidade.
Imagem: Retrato de Lynn Hershman Leeson
https://www.lynnhershman.com/
