Anti-Woke

O que aí vem não é o nazismo, nem uma forma de neonazismo, porque a Alemanha, embora quase estagnada e em grave crise económica e social nas regiões da antiga Alemanha dominada pela URSS, não está na situação geoestratégica da Alemanha industrial do primeiro quartel do século 20. A Alemanha é hoje uma potência intermédia sem ambições de competir com os Estados Unidos e a China. Por outro lado, faz parte dum grande bloco económico, social e cultural chamado União Europeia. No entanto, o crescimento consistente das direitas populistas e nacionalistas significa que algo irá mudar no excesso de arrogância do centro formado pelas esquerdas e direitas tradicionais. O pêndulo do sentimento ‘popular’ move-se rapidamente em direção aos extremos ideológicos tradicionais, mas de um modo caótico, sem ideologia precisa, agregando às suas hostes grupos soberanistas, populistas, atávicos e ultrarradicais, com sentimentos flagrantemente contraditórios, aliás, perfeitamente expressos na figura da líder da AfD, Alice Weidel — uma lésbica, casada com uma cineasta lésbica oriunda do Sri Lanka, com quem partilha a educação de duas crianças adotadas, doutorada na China em sistemas de pensões, ex-consultora da Goldman Sachs e da Allianz, vivendo na Suíça! Alice Weidel é uma política intelectual, pouco dada aos excessos atávicos que hoje pintam de estupidez as franjas no novo lumpen-proletariado letrado (o chamado precariado). É soberanista, defende o controlo da imigração e a remigração (nomeadamente dos migrantes ilegais que não trabalham ou cometem crimes), mas é mais prudente nas questões sociais e culturais. Vejo-a como uma política semelhante à italiana Giorgia Meloni, isto é, que, uma vez no poder, será seguramente uma surpresa. E não é doida como Trump, nem psicopata como Putin.

Como acima referi, o que aí vem não é qualquer forma de neofascismo, e sim uma onda radical anti-wokista. Os artistas mais fracos, que obedecem às modas lançadas pelos sucedâneos universitários de Berkeley, caninamente prosseguidas depois pela burocracia académica e museológica mundial, que se acautelem. A moda vai mudar, mas, no início, será muito semelhante às agendas do movimento Woke: identitárias, localistas, sumárias e atávicas.

O regresso da figuração sem objeto útil, meramente subjetivista, especulativa e narcisista já aí está, e em força! Em Portugal sobram, aliás, os exemplos e a arrogância bacoca de uma grandiloquência oportunista que faria rir Dalí.

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