Anti-Woke

Lead Belly at the Sunday Worker office, 1937 (Wikipedia)

O que aí vem não é o nazismo, nem uma forma de neonazismo, porque a Alemanha, embora quase estagnada e em grave crise económica e social nas regiões da antiga Alemanha dominada pela URSS, não está na situação geoestratégica da Alemanha industrial do primeiro quartel do século 20. A Alemanha é hoje uma potência intermédia sem ambições de competir com os Estados Unidos e a China. Por outro lado, faz parte dum grande bloco económico, social e cultural chamado União Europeia. No entanto, o crescimento consistente das direitas populistas e nacionalistas significa que algo irá mudar no excesso de arrogância do centro formado pelas esquerdas e direitas tradicionais. O pêndulo do sentimento ‘popular’ move-se rapidamente em direção aos extremos ideológicos tradicionais, mas de um modo caótico, sem ideologia precisa, agregando às suas hostes grupos soberanistas, populistas, atávicos e ultrarradicais, com sentimentos flagrantemente contraditórios, aliás, perfeitamente expressos na figura da líder da AfD, Alice Weidel — uma lésbica, casada com uma cineasta lésbica oriunda do Sri Lanka, com quem partilha a educação de duas crianças adotadas, doutorada na China em sistemas de pensões, ex-consultora da Goldman Sachs e da Allianz, vivendo na Suíça! Alice Weidel é uma política intelectual, pouco dada aos excessos atávicos que hoje pintam de estupidez as franjas no novo lumpen-proletariado letrado (o chamado precariado). É soberanista, defende o controlo da imigração e a remigração (nomeadamente dos migrantes ilegais que não trabalham ou cometem crimes), mas é mais prudente nas questões sociais e culturais. Vejo-a como uma política semelhante à italiana Giorgia Meloni, isto é, que, uma vez no poder, será seguramente uma surpresa. E não é doida como Trump, nem psicopata como Putin.

Como acima referi, o que aí vem não é qualquer forma de neofascismo, e sim uma onda radical anti-Woke. Os artistas mais fracos, que obedecem às modas lançadas pelos sucedâneos universitários de Berkeley, prosseguidas depois pela burocracia académica e cultural em geral (museus. etc.), que se acautelem. A moda vai mudar, mas, no início, em alguns aspetos, será semelhante ao que deu origem ao movimento Woke (1): reação e contrarreação a episódios de violência religiosa, racista, xenófoba, sexista e de género, a problemas sociais graves e questões de identidade, populismo radical e atavismo de massas.

No campo da chamada ‘arte contemporânea’, o regresso da figuração propagandista militante, sem objeto útil, provocadora, maniqueia, especulativa e narcisista já está entre nós. Em Portugal sobram, aliás, exemplos de uma arrogância bacoca, grandiloquente e oportunista que faria rir Dalí.

NOTAS

Sobre as origens do movimento Woke

Marcus Garvey (1887, Saint Ann’s Bay-1940, West Kensington)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcus_Garvey

Lead Belly (1889-1949); “stay woke” (1938)
https://en.wikipedia.org/wiki/Lead_Belly#%22Stay_woke%22

William Melvin Kelley (1937-2017). “If You’re Woke, You Dig It”, The New York Times (1962)
https://en.wikipedia.org/wiki/William_Melvin_Kelley

Ferguson unrest (2014)
https://en.wikipedia.org/wiki/Ferguson_unrest

Black Lives Matter (2013 – )
https://en.wikipedia.org/wiki/Black_Lives_Matter

#BackLivesMatter
#StayWoke

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