Viagem ao Ocidente / Viagem ao Oriente

Xilogravura, de um total de duzentas, do livro Viagem ao Ocidente (西遊記, Xī Yóu Jì em pinyin), 1592

Os Lusíadas (primeira edição: 1572)

Viagem ao Ocidente (primeira edição: 1592)

Portugal, Segunda Dinastia: 1385 d.C. – 1580 d.C. [restauração: 1640; retoma plena da soberania: 1668]

China, Dinastia Ming: 1368 d.C. – 1644 d.C


Os Lusíadas (1572)

Estrutura: este poema épico, que conta a viagem-epopeia conhecida como Caminho Marítimo para a ìndia, além de pôr em relevo factos relevantes da história do povo protuguês até então, como a Batalha de Aljubarrota (que assegurou a independência portuguesa face às pretensões de Castela) a tragédia da paixão do rei Pedro I pela princesa galega Inês de Castro, com quem viria a casar depois desta ter sido assassinada, é composto por 10 cantos (capítulos) e tem cerca de 317 mil carateres.

Viagem ao Ocidente (1592)

Sobre o Título

O termo chinês 西遊記 traduz-se literalmente como Registo da Viagem ao Ocidente.

A versão definitiva de 1592 de “Viagem ao Ocidente” (西遊記, Xī Yóu Jì em pinyin) é um dos Quatro Grandes Romances Clássicos da literatura chinesa. A obra relata a peregrinação do monge Xuanzang à Índia (no séc. VII) para recuperar sescrituras (sutras) budistas.

Autor: A obra é tradicionalmente atribuída ao escritor e acadêmico Wu Cheng’en (c. 1500–1582), embora tenha sido publicada anonimamente em 1592, pela editora Xinxiang Jinling Shidetang (新鐫金陵世德堂本).

Consultar:
Chinese Text Project
LINK
https://ctext.org/library.pl?if=en

Estrutura: O épico é composto por 100 capítulos e tem cerca de 588.000 caracteres chineses (Mandarin), e 200 gravuras, tornando-se uma leitura complexa e densa.

Protagonistas: Acompanham o monge na sua demanda três personagens icónicas que enfrentam inúmeros demónios e deuses pelo caminho:

Sun Wukong (O Rei Macaco)
Zhu Bajie (O Homem-Porco)
Sha Wujing (O Espírito do Rio/Areia)

Os Lusíadas (1572) vs Viagem ao Ocidente (1592)

Duas Respostas Literárias a duas crises políticas simétricas: colapso da Segunda Dinastia portuguesa (1580) e esgotamento da dinastia Ming (1368 d.C. – 1644 d.C)

Embora celebrem a grandeza e o heroísmo, ambos os livros foram publicados num clima de profunda ansiedade política e decadência iminente:

Em Portugal (1572): O império português no Oriente estava financeira e militarmente sob pressão.

O jovem rei D. Sebastião (1554 – 4 de agosto de 1578), último rei da Segunda Dinastia, a quem Luís de Camões (que morre a 10 de junho de 1580) dedica a obra, vivia obcecado com ideais de cruzada. Apenas seis anos após a publicação de Os Lusíadas (1578), D. Sebastião desapareceria na Batalha de Alcácer-Quibir, levando à perda da independência de Portugal para Espanha em 1580.

O longo poema, “Os Lusíadas”, surge como o último grande fôlego e monumento de orgulho antes do colapso dinástico.

Na China (1592): A Dinastia Ming enfrentava uma corrupção interna massiva, a incompetência do imperador Wanli e a ameaça constante de invasões (especialmente do Japão e Coreia).

“Viagem ao Ocidente” usa a sátira e a comédia para criticar a burocracia imperial e celestial da época.

O caos provocado pelo Rei Macaco no Céu reflete o descontentamento social da China do final do século XVI, poucas décadas antes da queda definitiva dos Ming (1644).

Lidar com a tecnologia e… a censura

A forma como os textos chegaram ao público também ilustra as diferenças de produção da época.

Lisboa (1572): a obra de Camões foi impressa através da prensa de tipos móveis de metal (na oficina de António Gonçalves). Teve de passar pelo crivo severo da Inquisição portuguesa, o que obrigou Camões a justificar o uso dos deuses pagãos gregos e romanos como meras alegorias poéticas.

Nanjing (1592): A epopeia chinesa foi produzida através da milenar técnica de xilogravura (blocos de madeira tallada). Para evitar perseguições e a censura da corte Ming contra sátiras políticas, o livro foi publicado de forma totalmente anónima pela editora Shidetang, omitindo deliberadamente o nome do autor.

Viagem ao Ocidente, original e cópias

O Documento Original do Século VII

A grande relíquia documental dessa época provando que a saga não dependeu da memória oral é o livro “As Grandes Crónicas de Tang sobre as Regiões Ocidentais” (Da Tang Xiyu Ji), concluído em 646 d.C.. Quem o escreveu? O próprio monge Xuanzang, ditando as suas memórias de viagem ao seu discípulo Bianji.

O Imperador Taizong, da Dinastia Tang (618–907 d.C.), a Época de Ouro da China, financiou a escrita do livro. O imperador não estava interessado em religião, mas sim em informações militares e geográficas estratégicas sobre a Rota da Seda e os reinos da Ásia Central.

É um relato geográfico e antropológico rigoroso, desprovido de qualquer elemento fantástico. Não há Rei Macaco, não há demónios a querer devorar o monge, nem feitiços. É uma descrição de climas, moedas, costumes locais e distâncias entre cidades.

Do Século VII a 1592

Foi precisamente esse manuscrito oficial do século VII, copiado e impresso ao longo das dinastias chinesas, que serviu de esqueleto geográfico para o romance de 1592. O autor da Dinastia Ming manteve os nomes reais das montanhas, desertos e reinos que Xuanzang descreveu no século VII, mas usou o folclore popular para transformar cada paragem geográfica real num ninho de monstros e deuses.

Akira Toriyama

Akira Toriyama seguiu a narrativa de Viagem ao Ocidente de forma altamente livre, satírica e fragmentada. O clássico chinês de 1592 serviu apenas como o trampolim inicial para a criação de Dragon Ball (1984). À medida que a mangá progredia, Toriyama abandonou quase por completo a estrutura da lenda para abraçar a ficção científica e os combates puros (especialmente em Dragon Ball Z). O nível de adaptação dividiu-se nitidamente em três grandes vertentes:

  1. Correspondência Direta de Personagens (O Primeiro Arco)

No início da história, o quarteto principal de Dragon Ball espelhava exatamente a comitiva que viajava em direção à Índia:

Son Goku = Sun Wukong (O Rei Macaco): Mantém a cauda de macaco, a herança de viver numa montanha isolada, o bastão mágico que estica (Nyoi-bō) e a nuvem voadora (Kinto-un). O próprio nome “Son Goku” é a leitura em japonês dos caracteres chineses de Sun Wukong.

Bulma = Monge Xuanzang (Tripitaka): O monge humano que inicia a demanda. Na mangá, Bulma substitui a busca espiritual de sutras budistas pela busca tecnológica das Esferas do Dragão. Ela assume o papel do líder que recruta e guia os outros.

Oolong = Zhu Bajie (O Homem-Porco): Um porco antropomórfico com a habilidade de mudar de forma, com uma personalidade preguiçosa, cobarde e obcecada pelo sexo oposto, igualzinha à figura da obra de 1592.

Yamcha = Sha Wujing (O Monge da Areia): Um bandido do deserto que ataca os viajantes antes de se redimir e unir ao grupo, emulando o demónio do rio de areia do romance clássico.

  1. Episódios Adaptados

Vários encontros icónicos dos primeiros volumes de Dragon Ball são reiterações diretas de capítulos específicos de Viagem ao Ocidente:

O Rei do Gado (Gyumao) e a Montanha de Fogo: É o Ox-King da lenda chinesa, cujo castelo arde numa montanha mística.

Toriyama adaptou a cena em que o grupo precisa do Leque de Bansho para apagar o fogo.

A Redenção dos Inimigos: No romance de 1592, os monstros derrotados convertem-se ao Budismo e tornam-se aliados.

Toriyama imitou este tropo narrativo ao transformar rivais ferozes em heróis e protetores da Terra (como Yamcha, Piccolo e, mais tarde, Vegeta).

  1. A Rutura Total com a Obra de 1592

Toriyama nunca planeou uma adaptação literal. A partir do momento em que o primeiro desejo às Esferas do Dragão é concedido e começam os Torneios de Artes Marciais (Tenkaichi Budokai), a narrativa corta os laços com o clássico chinês: Do Misticismo para a Ficção Científica: Onde o texto Ming colocava deuses taoistas e iluminação espiritual, Toriyama introduziu alienígenas (revelando que Goku pertence à raça Saiyan e não nasceu de uma rocha mágica), ciborgues, viagens no tempo e tecnologia da Corporação Cápsula.

A Influência do Cinema de Hong Kong:

Toriyama admitiu que misturou a estrutura de Viagem ao Ocidente com o seu amor por filmes de Kung Fu de Jackie Chan (Drunken Master) e Bruce Lee, focando-se mais nas coreografias de combate do que na odisseia de viagem.

Referências: várias, via Internet.

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