Tive um sonho

Patrícia, 12 dias.
Vídeo p/b, 12 minutos — 1980
(postal, frente)

Os sonhos, pela sua natureza cerebral estrategicamente ativa, deveriam ter lugar no Parlamento dos Outros

Esta noite sonhei que percorria uma grande exposição num museu importante, mas indefinido no nevoeiro das imagens. Três ou quatro salas exibiam obras de arte conceptual. Eu estava ali, na pré-inauguração, no meio de outros artistas, jornalistas, críticos, diretores de museus e de galerias e da maioria dos colecionadores de arte portuguesa. Os sorrisos, abraços e beijinhos da praxe misturavam-se com sorrisos cúmplices e de surpresa. O motivo desta deferência, levemente irritante, era o facto de eu estar representado na exposição (segundo me disse quem me quis fazer a surpresa) com várias obras dos anos 80 do século passado, entre uma maioria de obras de outros autores da década de 90 e das duas primeiras deste século.

À medida que as obras me eram mostradas, uma sensação estranha entrava por mim adentro: não as reconhecia como minhas, salvo um postal preto e branco de um vídeo há muito perdido e que levava o título “Patrícia, 12 dias”, 1980. Não conseguia mesmo lembrar-me daquelas obras como sendo minhas. No dia seguinte fui acompanhar uma visita guiada à exposição. Precedia-me uma das suas curadoras. Foi então que percebi que todas as obras expostas naquela espécie de secção conceptual da exposição eram, de facto, obras recentes de artistas mais jovens, que desconhecia, ou mal conhecia, à exceção de um amigo de longa data. O meu postal estava, aliás, colocado entre as obras deste meu amigo, em geral de grande dimensão. De Alzheimer, portanto, não sofro!

Esta exposição de obras conceptuais, ou pós-conceptuais, como geralmente se designam as que são posteriores à década de 70 do século XX, toda ela monocromática, não poderia ter tido um impacto mais favorável no meu subconsciente. Por isso acordei e consegui fixar o sonho. A vantagem dos sonhos é, na realidade, esta: não têm cores. Obras de arte, arquitetura e público, tudo vagamente a preto e branco, ou sem qualquer cor.

Ou seja, sonhamos quase sempre a preto e branco. Só uma vez me saiu debaixo da cama, disparada, uma bola de carne ensanguentada e viva. Creio que é assim porque, no subconsciente, nomeadamente nos sonhos, não há perceção, mas apenas memórias da perceção: memória da cor, portanto, mas não a cor propriamente dita, a qual só pode ser sentida presencialmente, através dos olhos em diálogo com os neurónios. Podemos descrever a qualia, mas, para sermos exatos na descrição, precisamos de mostrar o que queremos explicar.

Nós podemos atribuir códigos às cores — na realidade, quase tantos códigos quantas cores chegam aos nossos olhos — e, assim, saber qual o batom que serve perfeitamente o gosto da nossa amante. Sem estes números, porém, é praticamente impossível termos a certeza, diante de um mostruário da Lancôme, sobre o batom usado pela mulher que amamos. Talvez seja por um mecanismo semelhante que os neurónios conseguem, apesar de tudo, memorizar as cores mas, tal como raramente disparam sensações cromáticas nos sonhos, o mesmo ocorre no pensamento. Posso pensar no vermelho, mas não vejo, não sinto o vermelho como resultado do seu enunciado verbal interior.

Mas, se é assim, se sonhamos invariavelmente sem sensações cromáticas, por que têm os sonhos tanta importância na criação artística? Uma hipótese verosímil é a de que a sua força é eminentemente conceptual.

Os sonhos coloridos são, portanto, pastiches.

Os sonhos, pela sua natureza cerebral estrategicamente ativa, deveriam, em suma, ter um lugar no Parlamento dos Outros.


NOTA — Este texto foi originalmente publicado em inglês em 9 de março de 2025.

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