
I
Estou de acordo com a ideia de uma espécie de Whitney Museum português. Um Museu de Arte Portuguesa Contemporânea faz todo o sentido. Se existisse, poderia ter uma programação intensa de arte portuguesa (em sentido lato, claro), já agora, contemporânea e pós-contemporânea (onde as novas tecnologias, da fotografia à Internet e à Pós-Internet teriam inevitavelmente lugar). Defendo esta ideia porque existe, de facto, uma arte portuguesa contemporânea e pós-contemporânea de boa qualidade. E não pode continuar a ser varrida para debaixo dos tapetes da burocracia e das franquias museo-galeristicas internacionais. Há lugar para todos. Mas precisamos de ética, critério, transparência democrática, responsabilidade, avaliação de resultados e boa gestão.
O Alexandre Pomar lançou-se numa diatribe contra a CACE (Coleção de Arte Contemporânea do Estado), contra as instalações da extinta Ellipse Foundation, do malogrado João Rendeiro, onde o acervo da CACE se irá consolidando (espera-se), e sobretudo contra a responsável da CACE, Sandra Vieira Jürgens. Mas a única verdade nisto tudo é uma e apenas uma: o cobertor orçamental não vai continuar a esticar… Portanto, organizem-se!
II
O histórico, explanado por AP no Facebook e que republico no fim deste comentário, é relevante porque, precisamente, falta transparência nos assuntos da arte, em geral, e no que o Estado faz neste domínio em particular. Falta também uma base de dados online onde a memória dos acontecimentos, das realizações e das decisões oficiais, sejam do Estado central, ou das Autarquias, se possa fixar, compilar e discutir. Esta base de dados não pode ser pública, mas privada. Há tantos colecionadores, mecenas e até alguns (poucos) artistas ricos que não é certamente por falta de recursos que continuamos todos na penumbra do diz que diz e das conveniências ou ódios de momento.
Dito isto, o essencial desta polémica não é a CACE, a ministra de turno, e muito menos (apesar do mal que às vezes causam) as maçonarias e as famílias de influência instaladas no meio. O essencial é separar bem o Estado do privado, em vez de continuarmos, meio século depois da ditadura, e 58 anos depois de Salazar, a misturar à boa maneira corporativista as duas coisas.
Defendo um único Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea polinuclear. Que reúna, conserve e divulgue, em primeiro lugar, a arte portuguesa, e em paralelo, o essencial (não o acessório) das principais tendências internacionais da arte moderna e contemporânea inventada e produzida na Europa, nas Américas e no Japão. É um programa claro. Só falta dar-lhe substância e operacionalidade.
Este museu do Estado seria um museu com os seus pólos principais em Lisboa e Porto, nomeadamente no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC), no Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR), No Museu de Serralves e MAC/CCB.
O edifício da antiga Ellipse Foundation, de triste memória, poderia certamente funcionar como um depósito aberto das reservas da Coleção de Arte Contemporânea do Estado — a publicly accesible art storage. Há um bom exemplo em Roterdão nesta matéria: o DEPOT do Museum Boijmans Van Beuningen. Lisboa não é só o Chiado, a Rua do Vale à Calçada do Combro, ou Belém. Cascais, que faz parte da Grande Lisboa, merece somar à Casa das Histórias Paula Rego, uma instituição nacional de peso, a par, diga-se, do Museu da Música Portuguesa situado Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril.
ALEXANDRE POMAR
I
O CASO DA COLECÇÂO ELLIPSE E O ATAQUE AO CCB. CARTA PESSOAL A UMA MINISTRA MAL INFORMADA

- Como se pode comprovar pela foto junta, ignoro se a Col. Ellipse é mesmo importante dentro dos acervos de arte contemporânea existentes no CCB, de que é parte central e essencial a Col. Berardo, que se encontra sob tutela judicial. Os compradores de João Rendeiro para o Fundo e depois Fundação Ellipse, Alexandre Melo (então assessor de Sócrates) e Pedro Lapa (então director do Museu do Chiado) – duas acumulações inaceitáveis, como se discutiu à época -, nunca me pareceram figuras de gosto seguro.
- Se José Berardo ganhar os processos judiciais q se eternizam, levantados pelos bancos de que é devedor, é provável q lhe interesse manter a colecção no CCB e ressuscitar o (seu) respectivo nome original. A sua ambição foi dotar o país com um museu de arte moderna e contemporânea, por dedicação, amor à arte (e à camisola), responsabilidade social e altruísmo. Nunca quis vender as obras que adquiriu, e ouvi-lo a comentar as peças da colecção é uma experiência muito generosa.
- Se o comendador José Berardo perder os processos, no todo ou em parte (falta reavaliar a colecção que entretanto, desde 2005, muito se valorizou), o Estado não vai comprar o acervo, pq não terá dinheiro para isso – já perdeu uma oportunidade favorável.
A ameaça de meter a Col Berardo sob a tutela do chamado CACE, Colecção do Estado, de que agora se fala sem haver nenhum bom senso – meter as obras e a correspondente responsabilidade curaturial -, não tem sentido nem pernas para andar. O que se espera, na hipótese bastante improvável de o Berardo perder os processos, é q os vários bancos credores, cedendo às recomendações do Estado, venham a manter as suas partes de colecção no CCB, onde muito se valorizarão, considerando-as nas suas contas como activos, como fazem com as outras propriedades. - Mas no CCB estão só as obras que foram objecto de depósito inicial por parte das Fundações de Berardo, no início desta história. As peças da colecção pessoal, aquisições posteriores, que prolongavam no tempo e diversificavam o acervo (julgo q o grande Matta, a América Latina, figurações recentes), foram legitimamente retiradas por ele no contexto do conflito judicial.
Outro acervo importante, resultante das aquisições orientadas por Jean-François Chougnet, 1º diretor do Museu (o melhor director q por cá trabalhou na área dos modernos), foi adquirido por Berardo a preço de custo, aliás custo muito bonificado por ser Chougnet e por ser para o Museu: nos anos iniciais (2 ou 3?) do Museu do CCB, Berardo e o Estado metiam 500 mil euros para compras, cada um, anualmente, e o contrato permitia em caso de resolução a entrega das obras a uma das partes, descontando o valor já entregue (no total 2 ou 3 mihões); são obras recentes e muitas de artistas portugueses, tipo Cabrita e Sarmento. O Estado não se chegou à frente.
Berardo tem exposto no Funchal e tem pronta a antiga garagem da Rodoviária em Azeitão (perto da Bacalhoa) que comprou para as acolher. Mas o CCB seria o seu lugar “natural”. Em toda esta história, desde o 1º contrato Estado/Berardo ao tempo e por ordem de Sócrates, depois com a renovação cega do contrato por Castro Mendes, o Estado foi acumulando erros e desleixos. - Ao CCB, ao MAC/CCB, à data da sua criação por António Costa e Adão e Silva, foi atribuída a colecção Berardo, que lá se encontrava, bem como as colecções Ellipse e Teixeira de Freitas em depósito. O Estado (o MC, o MMP ou a ambiciosa funcionaria D. Sandra) nunca poderia transferir a col. Berardo para qualquer outro lado, porque não depende do Estado e sim dos tribunais, e o comendador é ainda o proprietário. Aliás, para q uma obra qualquer saia do CCB para ser cedida para uma exposição internacional ou local é necessário (ou era até há pouco) pedir a autorização escrita de Joe Berardo. (Julgo q continua a ser assim – ele continua a ser o legítimo detentor da propriedade mesmo q os bens estejam judicialmente arrolados.)
- Diz-se que a colecção do BPP, Banco Privado do Rendeiro, foi atribuída em comodato a Serralves, e aí se deverá manter, não no inacessível barracão da Rua das Fisgas de Alcoitão. Outra colecção, essa pessoal do João Rendeiro, foi adquirida (no todo, ou com falhas?) por Serralves ao tempo da direcção de João Fernandes, também a preço de custo apenas corrigindo a inflação. Contou-me o João que foi uma negociação muito renhida: Rendeiro tinha comprado a preços bem favoráveis por as obras se destinarem ao depósito e apresentação em Serralves, e esse foi um argumento decisivo para fazer os preços.
- No domínio da relação entre a arte contemporânea (ou não) e banqueiros fraudulentos (Berardo não é tal) há ainda o caso Oliveira e Costa do BPN, com a colecção egípcia, a malfadada col. Miró, que encheu o olho dos papalvos e o Estado comprou por junto em vez de escolher o melhor, e isso seria o bastante…, mais algumas obras contemporâneas ± avulsas. Aliás nunca se soube quanto teve o Estado de pagar à Christie’s para suster o leilão Miró… Tudo isto é uma história menos interessante.
PS. O problemático personagem Paulo Mendes publicou um texto no Público invocando o nome de uma associação de artistas, AAPP, sem perguntar nada aos associados, que agora aparecem em grande número a assinar a CARTA à Ministra (aliás os associados da AAPP são poucos e restritos, e as eleições da direcção não são sérias, o site é escasso). Aí apoiava a conjura a favor de Alcoitão e da D. Sandra contra o CCB. Agora os abaixo assinados da Carta tiraram-lhe o tapete: interditem-no que o gajo não é sério.
II
A CARTA À MINISTRA (LINK)
“No quadro das negociações em curso para o estabelecimento de um protocolo que definirá o destino e a tutela da Coleção Ellipse, os abaixo-assinados, cidadãos e profissionais do âmbito da arte contemporânea, nas suas variadas vertentes, defendem ser crucial que a referida Coleção fique em depósito permanente no MAC/CCB, em Lisboa, tal como foi anunciado aquando da inauguração desta instituição, em 2023.
O MAC/CCB foi constituído, enquanto Museu, no pressuposto de que, sob a sua alçada, e sob diversos regimes contratuais, ficariam a Coleção Berardo, a Coleção Ellipse e a Coleção Teixeira de Freitas. A complementaridade e a articulação destas três coleções são os fatores que permitem, de forma inédita em Portugal, o estabelecimento de um panorama contínuo, consistente e internacional da arte moderna e contemporânea, de 1909 à atualidade.
A oportunidade histórica construída através do depósito permanente destas três Coleções no MAC/CCB aparece agora ameaçada pela sua hipotética desarticulação, nomeadamente através da tutela da Coleção Ellipse pela CACE , numa decisão que duplicaria funções, equipas e orçamentos para prosseguir um objetivo para o qual o MAC/CCB já está vocacionado e apenas ele está preparado.
Em suma, defendemos que a Coleção Ellipse deve ser gerida no quadro institucional do MAC/CCB. A sua retirada para integrar um “centro de arte” constitui uma decisão cara e improdutiva, amputando o Museu, comprometendo o seu trabalho e as aspirações do público e artistas portugueses, e, em última análise, empobrecendo o país.”
ASSINADA POR 140 ARTISTAS E PROFISSIINAIS.
Também assinei mas eu sou amador…
III
NOVO COMENTÁRIO
- Como pode comprovar a foto junta, não sei se a Col. Ellipse é importante dentro do acervo confiado ao CCB, de q é parte central e essencial a Col. Berardo, que se encontra sob tutela judicial. Alexandre Melo (então assessor de Sócrates) e Pedro Lapa (então director do Museu do Chiado)- duas acumulações inaceitáveis, como se discutiu à época – nunca me pareceram compradores de gosto seguro. Se Berardo ganhar os processos judiciais q se eternizam, levantados pelos bancos de que é devedor, é provável q lhe interesse manter a colecção no CCB e ressuscitar o (seu) respectivo nome. A sua ambição foi dotar o país com um museu de arte moderna e contemporânea, por dedicação, amor à arte (e à camisola), responsabilidade social e altruísmo.
- Se o comendador José Berardo perder os processos, no todo ou em parte (falta reavaliar a colecção que muito se valorizou), o Estado não vai comprar o acervo, pq não terá dinheiro para isso – já perdeu uma oportunidade favorável. A ameaça de meter a Col Berardo no chamado CACE, de que agora se fala, as obras e a responsabilidade curatorial, não tem sentido nem pernas para andar. O que se espera, na hipótese bastante improvável de o Berardo perder, é q os vários bancos credores, cedendo às recomendações do Estado, venham a manter as suas partes de colecção no CCB, onde muito se valorizarão, considerando-as nas suas contas como activos, como fazem com as outras propriedades.
- No CCB estão as obras que foram objecto de depósito por parte das Fundações de Berardo. As peças da colecção pessoal, aquisições posteriores, que prolongavam no tempo e diversificavam o acervo (julgo q o grande Matta, a América Latina, figurações recentes), foram retiradas por ele no contexto do conflito judicial. Outro acervo importante, resultante das aquisições orientadas por Jean-François Chougnet, 1º diretor do Museu (o melhor director q por cá trabalhou na área dos modernos), foi adquirido por Berardo a preço de custo, aliás custo muito bonificado: nos anos iniciais (2 ou 3?) do Museu, Berardo e o Estado metiam 500mil euros para compras, cada um, e o contrato permitia em caso de resolução a entrega das obras a uma das partes, descontando o valor já entregue (no total 2 ou 3 mihões); são obras recentes e muitas de artistas portugueses, tipo Cabrita e Sarmento. Berardo tem exposto no Funchal e tem pronta a antiga garagem de Azeitão para as acolher. Em toda esta história, o Estado foi acumulando erros.
- Portanto, ao CCB, MAC/CCB, foi atribuída a colecção depositada por Berardo, e o Estado (o MC, o MMP ou a ambiciosa funcionaria D. Sandra) não poderá transferi-la para qualquer outro lado, porque não depende do Estado e sim dos tribunais. Aliás, para q uma obra qualquer saia do CCB para ser cedida para uma exposição é necessária a autorização escrita do Berardo. (Julgo q continua a ser assim .- ele é o legítimo proprietário mesmo q os bens estejam judicialmente arrolados.
- Diz-se que a colecção do BPP, Banco Privado do Rendeiro, foi atribuída em comodato a Serralves, e aí se deverá manter, não no inacessível barracão da Rua das Fisgas de Alcoitão. Outra colecção, essa pessoal do João Rendeiro, foi adquirida (no todo, ou com falhas?) por Serralves ao tempo da direcção de João Fernandes, também a preço de custo apenas corrigindo a inflação. Contou-me o João que foi uma negociação muito renhida: Rendeiro comprava a preços favoráveis por as obras se destinarem ao depósito e apresentação em Serralves, e esse foi um argumento decisivo.
- No domínio da relação entre a arte contemporânea (ou não) e banqueiros fraudulentos há ainda o caso Oliveira e Costa do BPN, com a colecção egípcia, a malfadada col. Miró, que encheu o olho dos papalvos e o Estado comprou por junto em vez de escolher o melhor, e seria o bastante, mais obras contemporâneas ± avulsas. É uma história menos interessante.
