7 Fevereiro – 28 Junho 2026

Espera, 1979, 2026
Quando a Paula Pinto me convidou para participar nesta exposição, o passado tornou-se subitamente presente. Tudo se passou entre 1979 e 1981, o ano em que a Galeria de Belém ardeu. Também conhecida como Galeria Nacional de Arte Moderna (ler o artigo de Catarina Rosendo sobre a malograda LIS), esta instituição pública nascida no caldo pós-revolucionário que se seguiu ao 25 de novembro de 1975, desapareceu há muito, mas ali nasceu boa parte da conspiração artística que, a par da ação de Fernando Pernes e Etheline Rosas no Porto, e de Alberto Carneiro, Túlia Saldanha e António Barros, em Coimbra, estabeleceram a evolução da instituição da arte contemporânea no nosso país depois da festa e da balbúrdia revolucionária que se seguiram à queda da ditadura.
Neste grande incêndio arderam o famoso “Painel do Mercado do Povo”, uma pintura coletiva criada por 48 artistas em 10 de junho de 1974, uma exposição internacional de desenho, inteira e por inaugurar (LIS’81), meia centena de cadeiras forradas a veludo vermelho do cinema do Palácio Foz ali armazenadas à espera de restauro, e um estúdio profissional de vídeo e televisão da Philips, com equipamento áudio de estúdio novinho em folha, por estrear, destinado a ser o primeiro centro de arte vídeo e televisão experimental com que eu, o Julião Sarmento, o João Vieira e o Fernando Calhau sonhámos, apesar de então os ventos do regresso à (má) pintura já soprarem com força.
Criei naqueles dois anos intensos alguns dispositivos onde a presença da televisão e do vídeo era determinante: Dois Canais (1979-80), Espera (1979), Mediatable (1980), My TV Set (1980), Produtividade/ Observação vídeo (1981), etc. (1)
O convite da Paula Pinto criou-me um problema: como voltar a mostrar obras que viviam do tempo televisivo, em especial de um tempo tão carregado de aventuras pessoais e de História?
A resposta chama-se iteração. Ou seja, as obras na era da sua reprodutibilidade técnica, afinal, sofrem de obsolescência tecnológica, e são irreprodutíveis quando a sua matéria prima é, por exemplo, a vivência de um direto televisivo. Não podem ser copiadas porque a tecnologia foi parar aos cemitérios dos eletrodomésticos. Não podem ser vividas, nem falsificadas, porque a experiência televisiva é um hic et nunc, um aqui e agora, cuja repetição será sempre outra coisa. Um monumento megalítico e uma pintura parietal que resistam aos milénios são os mesmos de sempre — afetados pela agressão dos elementos, mas os mesmos. Podem, de facto, ser copiados e falsificados, até serem desmascarados. Mas, paradoxalmente, uma obra de arte feita com televisão não é reprodutível, nem falsificável, porque a sua atualidade irremediavelmente morreu.
O que mostro em Zapping são, pois, iterações de duas obras que nasceram e morreram no tempo da sua consumação. Ressuscitam agora (a cores!) como iterações. Uso a mesma partitura e o mesmo conceito num tempo atual. Com a tecnologia que entretanto evoluiu.
Em Dois Canais (1979-80, 2026), dois televisores recebendo sinal externo, competem entre si, com as suas imagens em movimento e o áudio emudecido — para acentuar o nosso distanciamento de algo que, na soma do vídeo e do áudio, se torna imediatamente irresistível ou incómodo. A imagem digital impressa sobre a qual pousam ou dois televisores fornece o contexto escolhido pelo autor; os canais de televisão, o primeiro canal público e o primeiro canal privado, estabelecem a esfera cognitiva e simbólica que a presença televisiva proporciona e na qual estamos irremediavelmente imersos, ainda que hoje sujeitos a uma omnipresença síncrona de espaços, tempos e memórias.
Na iteração de Espera (2026) temos, de um lado, um televisor que reproduz o que recebe das ondas hertzianas ou do cabo; confrontando-o, um monitor que mostra um ser virtual aparentemente atento ao que se passa entre os humanos no televisor diante de si.
O aspeto para mim mais importante nestas duas obras é a estranha sintonia entre espaços-tempos tão diversos e frequentemente antagónicos.
Obras em vídeo, as três primeiras sobre televisão (1980)
- Propedeutic. Colour, U-Matic, PAL/Secam, 6 minutes 15 seconds
- Ouverture. Colour, U-Matic, PAL/Secam, 7 minutes 2 seconds
- Dancing Days. Colour, U-Matic, PAL/Secam, 16 minutes 2 seconds
- My TV Set. Colour, U-Matic, PAL/Secam, 7 minutes 12 seconds
- Patrícia. B&W, U-Matic, PAL/Secam, 12 minutes (destruída)
Para memória futura
(TEXTO CORRIGIDO EM 5 fev 2026)
duas obras do tempo e as suas réplicas
Obra #1: “Espera”, 1979
Monitor, Portapack, bobine, televisor, lençol
Exposição individual, Galeria Diferença, 1979.
Obra #2: sem título, 1979
Dois televisores, ampliação fotográfica, vidro
Exposição individual, Galeria Diferença, 1979.
Esta obra, sem título, dará no ano seguinte lugar a uma iteração com o título “Dois canais”.
Obra #3: “Dois canais”, 1980
Ampliação fotográfica (emprestada por Leonel Moura), dois televisores frente a frente, sintonizados respetivamente na RTP1 e RTP2 — ambos com imagem, ambos sem áudio.
Exposição coletiva inaugural do espaço ARTA, 1980.
Obra #4: “Espera (iteração)”, 2026
Computador (vídeo), televisor, lençol
Exposição coletiva, Zapping, Centro de Arte Oliva, 2026.
Obra #5: “Espera, Doc”, 2026
Moldura digital
Exposição coletiva, Zapping, Centro de Arte Oliva, 2026.
Obra #6: “Dois canais (iteração)”, 2026
Imagem digital; televisor 1—sintonizado na RTP 1; televisor 2—sintonizado na SIC (primeiro canal privado do país)
Exposição coletiva, Zapping, Centro de Arte Oliva, 2026.
Obra #7: “Dois canais, Doc”, 2026
Moldura digital
Exposição coletiva, Zapping, Centro de Arte Oliva, 2026.
O autor destas instalações interrompeu, em 1976 — após um processo de expulsão —, a sua participação ativa no processo revolucionário que derrubara a ditadura. Até então fora militante e dirigente trotskista da Liga Comunista Internacionalista (LCI)¹. No vazio político e existencial que se seguiu, regressou ao seu percurso artístico iniciado na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa antes da queda da ditadura, onde estudou arquitetura. Com o apoio de Cláudia Batarda e Lisa Chaves Ferreira, empregou-se como vitrinista no Palácio Foz, então sede da Direção-Geral da Ação Cultural, dirigida por Eduardo Prado Coelho².
Mais tarde, voltou a inscrever-se no curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que, contudo, não chegou a frequentar. É neste período de transição que apresenta a sua primeira exposição individual, em 1979, na Livraria-Galeria Opinião, acompanhada do manifesto Reflexões sobre arte, publicado no Diário Popular³.
Durante esta exposição, conhece José Barrias, Leonel Moura e Ernesto de Sousa. Nesse mesmo ano participa na mostra de arte portuguesa organizada pelo Museo Vostell-Malpartida (MVM), em Malpartida de Cáceres⁴. No ano seguinte, inaugura com Leonel Moura o projeto ARTA, sediado no seu ateliê em Lisboa, onde se realizaram duas exposições com a participação de José Barrias, Julião Sarmento, Leonel Moura e o próprio autor.
A 2 de dezembro de 1979 realizaram-se as eleições legislativas que dariam maioria absoluta à coligação de direita Aliança Democrática (PSD, CDS, PPM), liderada por Francisco Sá Carneiro. Foi a campanha eleitoral dessas eleições que serviu de leitmotiv para a instalação Espera, realizada na Diferença, em 1979.
O governo socialista de Mário Soares caíra em 1978, sendo sucedido por executivos presidenciais sem apoio parlamentar estável. Perante a instabilidade, o Presidente Ramalho Eanes dissolveu o parlamento em julho de 1979 e convocou eleições intercalares. Entre agosto e dezembro desse ano, Maria de Lourdes Pintasilgo tornou-se a primeira mulher a chefiar um governo em Portugal, liderando um executivo de iniciativa presidencial destinado a garantir o processo eleitoral.
A vertente política de grande parte das obras realizadas nas décadas de 1980 e 1990 tem, assim, uma raiz biográfica evidente. As referências que antecedem as suas indagações e experiências artísticas remontam ao Maio de 68, à Guerra do Vietname e ao diálogo pessoal com Álvaro Lapa, bem como ao diálogo mediado pela obra de artistas como Jackson Pollock, Robert Rauschenberg, Mark Rothko, Kazimir Malevich e Serge Poliakoff⁵.
Ironicamente, as datas destas três obras coincidem com o início do súbito “regresso à pintura” que marcaria a arte europeia e norte-americana ao longo da década de 1980. Reapareceram então uma pintura e uma escultura de novo plásticas, figurativas e subjetivas, que expulsaram da ribalta das galerias e museus a até então dominante tendência minimalista e conceptual afirmada desde os anos 1970. Essa viragem, marcada pelo abandono das chamadas “dicotomias felizes” (figurativo versus abstrato; académico versus experimental; sensorial versus conceptual; hot versus cool, etc.), recebeu o nome genérico de pós-modernismo. Este ecletismo instituiu um novo consenso artístico que perdurou até hoje — isto é, até ao fim do primeiro quartel do século 21 —, mesmo quando assimilado pelo maremoto das chamadas “causas fraturantes”: o novo feminismo, os movimentos LGBT, o discurso pós-colonial, o antirracismo e o ambientalismo — todos eles a atravessar, de forma transversal, a praxis cultural contemporânea.
Curiosamente, uma das maiores preocupações teóricas e operacionais da Inteligência Artificial, campo por onde o meu trabalho teórico, político e artístico tem transitado desde 2023, é justamente a de saber como ensinar as máquinas a sentir.
António Cerveira Pinto
14 de outubro de 2025 (atualizado em 5 de fevereiro de 2026)
Notas
- Organização trotskista portuguesa fundada em 1973 e legalizada após o 25 de Abril.
- Eduardo Prado Coelho (1944–2007), ensaísta e professor universitário, dirigiu a DGAC durante o período de consolidação das políticas culturais pós-revolucionárias.
- Reflexões sobre arte, Diário Popular, Lisboa, 1979.
- Museu criado por Wolf Vostell em 1976, dedicado à arte experimental e às poéticas do Fluxus.
- A distinção entre diálogo pessoal (com Álvaro Lapa) e diálogo estético (com os restantes artistas) pretende clarificar a origem das influências conceptuais e referenciais.
A voz dos comissários
ZAPPING: TELEVISÃO COMO CULTURA E CONTRACULTURA
A linguagem da comunicação social através do impacto tecnológico e cultural da televisão
Em exposição:
— 40 programas culturais da RTP
— Arquivos em diálogo com as obras de 28 artistas nacionais e internacionais.
Helena Almeida, Ant Farm, David Askevold, Pedro Barateiro, António Barros, Daniel Barroca, Rosa Baptista, Dara Birnbaum, Pedro Cabral Santo, José Carneiro, E. M. de Melo e Castro, António Cerveira Pinto, Jan Dibbets, Alexandre Estrela, Priscila Fernandes, Ângela Ferreira, Cristina Mateus, Antoni Muntadas, Emília Nadal, Nuno Nunes-Ferreira, António Olaio, Nam June Paik, Ção Pestana, Silvestre Pestana, Martha Rosler, Rui Toscano, Mariana Vilanova e Wolf Vostell.
Curadoria:
Paula Pinto (coord.), Alexandra Areia, Joaquim Moreno e Vera Carmo
ZAPPING: TELEVISÃO COMO CULTURA E CONTRACULTURA expõe a linguagem da comunicação social através do confronto entre o impacto tecnológico e cultural da televisão, sobretudo em emissão efémera e programada, e o seu reflexo e a sua instrumentalização como contracultura nas práticas artísticas. A exposição estrutura-se em cinco núcleos que assinalam grandes inflexões na história das interações sociotécnicas da televisão: FRONTEIRA, RESOLUÇÃO, RECEÇÃO, COR e MEMÓRIA. Cada núcleo monta um campo de emissões culturais da RTP, agregadas através das interações com os temas, e um contracampo de trabalho artístico contracultural engajado com a tecnologia e experiência televisiva.
Celebram-se os 70 anos do início das emissões experimentais da RTP em Portugal continental. Inicialmente recebida no espaço público e em coletivo, a «caixa mágica» rapidamente substituiu o espaço central da lareira no espaço doméstico, transformando as relações humanas entre interior e privacidade e entre corpo e tecnologia. A emissão efémera de uma grelha fixa de programação começou por chegar em direto a todos os lares, sincronizando estas novas domesticidades centradas no televisor. A proliferação de canais, com o cabo e o satélite, e a disseminação do comando remoto de televisão engendraram uma nova relação com a emissão: o telespectador passou a poder fazer zapping, percorrer rapidamente todos os canais, tentando combinar vários fluxos de programação num mesmo televisor. Porém, a possibilidade da cópia privada do fluxo público da emissão, com os gravadores de vídeo, estilhaçou a simultaneidade da televisão ao vivo. A memória da emissão transformou-se em conteúdo que passou a poder consultar-se a qualquer momento, apagando a televisualidade da domesticidade sincronizada.
Apesar de, em Portugal, ter servido como instrumento de controlo e propaganda do regime totalitário, a televisão não deixou de se inventar, intelectual, tecnológica e criativamente, como uma nova forma de comunicação, reconfigurando as fronteiras entre o passado e o presente, o real e a ficção, a atividade e a passividade, o domínio público e privado. A partir de 1974, esta nova arte tornou-se também ferramenta de construção democrática, assumindo a sua função de serviço público num país que experimentava a oportunidade de sintonizar consigo próprio, de aprender a viver em democracia, e de fazer da televisão um canal de empoderamento e liberdade.
Paralelamente, as artes sempre se interessaram pelo potencial da televisão, utilizando-a como veículo, medium ou suporte de cultura e contracultura. Alguns artistas criaram conteúdos para televisão, outros sobre televisão, e outros ainda recorreram ao próprio suporte televisivo, desenvolvendo abordagens políticas, novos meios de criação de imagens ou outras atividades mais conceptuais. Os artistas exploraram o potencial da televisão para desmaterializar a arte e dar a ver, de novas e diferentes maneiras; e alguns criticaram a exploração dos meios de comunicação de massa no sentido da promoção de um estilo de vida consumista, capaz de isolar os indivíduos e de os distrair das suas circunstâncias sociais e económicas.
Entre o desenvolvimento de uma nova arte da comunicação e a «Galeria de Televisão», apareceram canais como a MTV, com uma programação contínua e redundante, organizada intensamente através de videoclips, novas unidades de conteúdo adaptadas à duração das canções que emitia. Porém, até este canal que desencadeou uma nova indústria da perceção visual anunciou o seu fim em 2025. Com a televisão a ser apenas um dos canais de comunicação a que acedemos via internet, e com a inclusão do aparelho televisivo no ecrã multifuncional do computador ou do telemóvel, a sincronia pública desapareceu. Contudo, e apesar da crescente natureza solitária da sua receção, durante a pandemia de Covid-19, a televisão comprovou ser ainda uma força criativa com capacidade para continuar a informar, entreter e educar, como prometia a BBC no seu mandato inicial.
7 Fevereiro – 28 Junho 2026
Inauguração: sábado, a partir das 17h
Centro de Arte Oliva (São João da Madeira)
Autocarro a sair do Porto no dia da inauguração (e regresso ao final do dia). 40 minutos de viagem.
